sexta-feira, 22 de julho de 2011

Pense Positivo João Pereira Coutinho


Minha melhor amiga morreu no inicio do ano. Câncer, eis o nome do ladrão. Não entro em detalhes.
Mas há detalhes que não esqueço: a última vez que a vi, no hospital, dois dias antes da noticia amarga.
Havia dor e sofrimento, é lógico e também a certeza de que a cortina iria descer.
Disseram-se muitas coisas, coisas nunca ditas, inauditas  malditas  , como se o tempo , a escassez de tempo , fosse a musa inspiradora dos arrependidos.
Mas o que mais me custou naquele quadro de despedidas foi a culpa.
Não apenas a minha culpa pelos dias ou semanas desperdiçada longe dela.
 Falo da culpa que ela sentia por não ter sido positiva até o fim.
A crueldade do pensamento nunca mais me abandonou positiva, por que, ou para quê ou em quê?
Para ajudar na cura, dizia-me ela e diziam-me os familiares dela. O “pensamento positivo” é tão importante como as sessões longas e dolorosas de quimioterapia.
O humor do doente é 50% do caminho, ouvi eu, de vários sábios, vários dias seguidos.
Onde estará a camiseta com essa frase?
Abandonei o hospital sem palavras. Não basta a doença ser castigo que baste . Ainda existe exigência suplementar em ser positivo
Para certas mentes primitivas, ser positivo não é apenas importante no processo de cura; também é importante para explicar a própria existência da doença.
Se formos positivos, a doença se comporta como um animal selvagem na presença de uma fogueira: sente medo e retrai.
Se não somos positivos, a doença cheira nosso pessimismo, se aproxima e nos despedaça.
Como despedaçou a minha amiga. No funeral entre choros e lamentos ainda havia quem retornasse a mesma filosofia infame.
O câncer vencera a batalha porque ela deixara de lutar.
E, claro o humor do doente é 50% do caminho.
Não esmurrei ninguém porque um forte sentimento de repulsa me obrigou a sair logo dali.
É por isso que eu leio e aplaudo a entrevista de Jimmie Holland a “Veja”.
Ser positivo é acreditar que a nossa vontade otimista será capaz de reverter uma doença impessoal.
Holand é psiquiatra no memorial Sloan-Kettering, em Nova York e há mais de 30 anos acompanhada doentes com câncer.
O resultado de essa experiência pode ser lido em livro recentemente lançado “the Human side of câncer (o lado humano do câncer, ainda sem publicação no Brasil).
Conclusão de Holland o pensamento positivo não existe. É mito. É uma clamorosa estupidez.
Sim, o apoio psicológico é necesário em momentos de fragilidade oncologia, afirma Holland. O bem-estar psíquico é importante para os doentes e para suas famílias.
E é importante também  não deixar que a depressão se instale: quando há tratamentos para fazer , não é boa idéia ficar na cama todo dia, chorando a respectiva sorte.
Mas ser positivo é outra História: é acreditar que a nossa vontade otimista, nosso humor solar ,nossa forma de “encarar a vida” e outros clichês mentecaptos serão capazes de reverter uma doença  impessoal.
Essa crença é típica do racionalismo moderno na sua recusa extrema de aceitar o imponderável. Vivemos mais. Vivemos melhores. Controlamos o nosso destino-pessoal, coletivo como nenhum de nossos antepassados.
Mas, apesar de tudo isso, ou exatamente por causa disso, não podemos aceitar que a doença seja apenas doença: sem explicação ou resolução. Isso seria um insulto a nossa vaidade racionalista.
Se a doença chega, é porque nós deixamos os maus espíritos entrar. Se a doença se instala e mata, é porque nós deixamos os maus espíritos vencer. “O humor é 50% do caminho”, dizem os sábios. É a quem pertence os outros 50%?
Obviamente: pertence a  ciência , a única religião dos homens modernos , não falha nunca. Quem falha somos nós. Pense positivo leitor.
Moral da história? Não sei quantos doentes o “pensamento positivo”, na sua lógica ditatorial e desumana, condenou a uma culpabilização final e imoral. Suspeito que existe um exercito infinito deles.
Espero apenas que, esteja onde estiver, a minha amiga possa olhar para cá para baixo, para a estupidez dos homens, e perdoar aqueles que não sabem o que fazem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário