domingo, 3 de julho de 2011

Eu me cultivo debulhando miudezas. Debulho palavras como um lavrador que, na sua lavoura de seca, debulha as gotas de uma chuva como se fosse inundação, como quem debulha, no arreio da manhã, as vagens de feijão, para o cio de sua fome.

Sou de mínimos recebimentos. Carrego o escasso na memória. Fiz-me em dar. O que me assoreia é não retribuir. Teço margens, agüento o tranco, passo dos limites, e, às vezes, me faço de desentendido, só pelo mistério de reinventar a pessoa amada. Enxergo, no que me é dado, por menor e sem adornos que seja, o ofertório dos deuses, por minhas pequenezas de homem e humano.


Esmiúço o joio, cato, viro rendeira, para tecer do menor grão de trigo, o meu pão. Depuro as impurezas na bateia, para reter as notas de violino. Guardo as dores, as ofensas de boca e ato, amorteço-as, como quem cede seu corpo para as rosas necessárias.

O que me dão, de pouco, é farto, e que me tiram, de farto, é nada. Afinal, ela apareceu de repente, inesperada como uma miragem, mar e vela, linda e improvável, usando um vestidinho vermelho...



Nenhum comentário:

Postar um comentário